Reportagem: Acessibilidade, Mobilidade e Ambiente: os desafios e as oportunidades

Reportagem: Acessibilidade, Mobilidade e Ambiente: os desafios e as oportunidades

Acessibilidade, Mobilidade e Ambiente “devem fazer parte de qualquer modelo de cidade que se pretenda inteligente, competitiva e sustentável. Não é por acaso que são três palavras usadas em todos os discursos políticos e em todos os planos municipais”, começa por nos explicar Francisco Calheiros, presidente da CTP.

José Mendes

Para o secretário de Estado Adjunto e da Mobilidade, José Mendes, cidades como Lisboa e Porto enfrentam vários desafios ao nível da mobilidade. Só na capital, entram diariamente mais de 350 mil automóveis oriundos da sua área metropolitana. “A maioria da população ainda recorre bastante ao transporte individual e muitos dos que vivem nos arredores optam por usar o carro no trajeto entre casa e trabalho”, justifica. No entanto, o automóvel passa cerca de 92% do tempo parado e viaja apenas com um ocupante, o que revela que “esse sistema é pouco eficiente” gerando tráfego, assim como poluição atmosférica e sonora. Também o crescimento turístico contribui para o aumento de deslocações e consequente sobrecarga da rede de transportes.

O Governo tem investido no “aumento do acesso à mobilidade”, com a aposta no transporte público coletivo e no desenvolvimento dos modos partilhados, de modo a reduzir o número de veículos na rua. A medida mais emblemática é o programa de redução dos tarifários (PART), a entrar em vigor já em abril, e que em Lisboa permitirá a “criação de um passe único a preço muito reduzido”, explica o governante.

As medidas a implementar em Lisboa

Carlos Humberto de Carvalho

Neste âmbito, o primeiro-secretário da Área Metropolitana de Lisboa (AML), Carlos Humberto de Carvalho, revela à Ambitur que está a ser feito um Plano Metropolitano de Adaptação às Alterações Climáticas (PMAAC-AML), que “ajuda a dar sustentabilidade à estratégia futura relativa ao ambiente e às alterações climáticas, ao desenvolvimento da região, e em que os transportes, até pelo contributo negativo que dão para o ambiente, necessitam de particular atenção”.

Outras medidas são a expansão e modernização do metro, o apoio à compra de autocarros elétricos e a gás, assim como a renovação da frota da Transtejo, com barcos movidos a gás natural.

Miguel Amado

O Governo veio, também, regular as plataformas de transporte de passageiros em veículos descaracterizados e os negócios de partilha de carros e bicicletas, os quais, segundo José Mendes, vieram “diversificar o ecossistema de mobilidade urbana e dar aos utilizadores uma série de opções para planear os seus trajetos”.

Para Miguel Amado, professor do Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, “o investimento público para infraestruturação do espaço público das cidades é já hoje uma condição de acesso para o aumento da atratividade das cidades e para a dinamização económica que o aumento do tempo de estadia e circulação nas ruas e praças da cidades promovem”.

A experiência do turista é revelada na mobilidade

Cristina Siza Vieira

Na perspetiva do diretor-geral dos Hotéis Heritage Lisboa, Luís Alves de Sousa, “as acessibilidades e mobilidade são fundamentais” e o “ambiente é o grande atual desafio”, com os turistas a revelarem-se cada vez mais sensíveis às práticas ambientais. O secretário de Estado Adjunto e da Mobilidade complementa: “o turismo sustentável assume cada vez mais relevância na distinção e afirmação dos destinos”.

Por sua vez, Cristina Siza Vieira, presidente executiva da AHP, argumenta que “só existe destino turístico quando há um meio ambiente preservado, equilibrado e sustentável e, para isso contribuem em larga escala, as boas acessibilidades”.

Ana Jacinto

Ana Jacinto, secretária-geral AHRESP, concorda que “a experiência do turista é também revelada na sua mobilidade e acesso, faz parte do universo da sua jornada”. A responsável da AHRESP atenta que “o turista planeia boa parte da sua viagem no digital”, desde a marcação de voo e alojamento, ao aluguer de carro e marcação de restaurante, mas “em Lisboa ou no Porto tem que adquirir um cartão físico para comprar viagens urbanas. Ora, isto não faz muito sentido”.

Lisboa está a perder “características peculiares”

Fernando Nunes da Silva

Também crítico é Fernando Nunes da Silva, professor catedrático no IST e ex-vereador da CML com o pelouro da mobilidade, sobretudo em relação à forma de atuação dos decisores políticos e operadores turísticos: “Se o que se pretende é um turismo massificador e predador, é evidente que, mais cedo ou mais tarde, pouco restará do ambiente inicial”, que esteve na origem do interesse turístico.

Segundo o professor catedrático, Lisboa já ultrapassou o limiar de procura que não coloca em causa “as suas características peculiares” que atraem os visitantes, o que conduziu à expulsão dos residentes mais antigos nos bairros históricos, à substituição de lojas tradicionais por franchising e à transformação de quarteirões inteiros em estabelecimentos hoteleiros.

Fonte oficial da TAP realça mesmo que “o principal desafio é que o impacto desse crescimento não descaracterize as cidades e que haja uma sã convivência entre a população local e os turistas”.

Fernando Nunes da Silva recorda que só agora começam a surgir restrições à circulação de autocarros turísticos e de “tuk tuk” em determinadas zonas da cidade. “Em vez de defender uma expansão do metropolitano para os bairros mais populosos, promoveu-se uma linha circular que tem como objetivo alargar o perímetro turístico” no centro de Lisboa, alerta. Contudo, “se o que se pretende é manter e valorizar o que atraiu inicialmente o turismo”, sem o descaracterizar, “então há que que encarar com pragmatismo e visão estratégica formas de controlo das mudanças e dos fluxos, de modo a que não ultrapassem o limiar de acomodação do destino”. Na opinião do catedrático, este é um “equilíbrio difícil de assegurar mas não é impossível”.

Luís Alves de Sousa, diretor dos Hotéis Heritage Lisboa

Luís Alves de Sousa

“Tanto Lisboa como o Porto são já distribuidores de turistas para o país e de grande importância nas regiões. Lisboa para a região Centro, grande Lisboa e Alentejo e Porto para toda a região Norte (grande destaque para o Douro) e Galiza. Esta tendência deverá ser cada vez mais acentuada sendo as áreas metropolitanas as mais beneficiadas.

A redistribuição de fluxos turísticos pode ser mais expressiva desde que haja uma boa parceria entre os responsáveis regionais públicos e privados, escolhendo e divulgando aquilo que aí existe de mais original e diferenciador. Em Lisboa, as limitações do aeroporto (instalações, serviços, etc.) são atualmente a maior barreira ao crescimento, no Porto creio que o crescimento depende mais do entendimento que acima falei.”

António Proença, gerente Carris Lisboa

António Proença

“Lisboa e Porto podem alargar o seu desenvolvimento turístico através da diversificação e da qualificação da oferta, mantendo os níveis de qualidade num padrão elevado mas sobretudo não perdendo a sua essência, e por esse facto é tão importante uma aposta forte na autenticidade, pois só desta forma continuaremos a surpreender quem nos visita, o que é essencial.

A Carristur continuará a apostar na diversidade da sua oferta, atualmente na cidade de Lisboa temos uma oferta bastante completa, proporcionando experiências de mobilidade diferentes, através de autocarros panorâmicos de dois pisos, elétricos históricos e passeios de barco no rio Tejo, através da marca Yellow Bus Sightseeing Tours.”

 

Este artigo faz parte de um Trabalho Especial publicado na edição 319 da Ambitur.

Leia também:

“A caminho de construir um turismo mais «inteligente» e sustentável”

Cristiana Macedo, Rita Inácio e Inês Gromicho (publicado na edição 319 da Ambitur)