“Conseguimos posicionar a BTL como a maior mostra do destino a falar português”

“Conseguimos posicionar a BTL como a maior mostra do destino a falar português”

Como é que chegou à área de organização de eventos?
Comecei como rececionista da Feira Internacional de Lisboa (FIL), depois de uma parte académica um pouco conturbada, entre Medicina e Economia. O meu primeiro emprego foi no Departamento de Economia da Associação Industrial Portuguesa (AIP). Passados uns meses, saltei para a área das feiras e, uns meses depois, entrei na área de Marketing. Em 1990, fui diretora de Marketing da FIL. Foi uma altura muito glamorosa em termos de publicidade e imagem. As feiras deixaram de ser tão tradicionais e começámos a desenvolver feiras segmentadas. Começámos a refletir e a dar uma profissionalização ainda maior às nossas feiras.
Nos anos 90 fui diretora de feiras, e uma das primeiras feiras de que fui responsável foi a Ceramex, na qual 50% dos visitantes eram estrangeiros, chegámos a ter 30 mil compradores na feira, exportávamos para o mundo.

Outra feira que faz parte das minhas memórias, e muito, é a FIL Moda, provavelmente uma das nossas feiras com maior impacto mediático. Havia várias empresas participantes e os desfiles de moda durante a feira e, à noite, convidávamos sempre estilistas. Eram os desfiles de moda mais bem conseguidos em Portugal, num investimento imenso que hoje é impensável. Tive a sorte de ter um emprego onde me divertia imenso.

Em 2005, deixei a atividade das feiras, com muita pena minha, e fui para a AIP como diretora de Relações Internacionais. E achei que era a profissão da minha vida. Foi uma altura em que as empresas queriam apostar em abrir contactos e mercados. Tive a sorte de estar no “boom” das exportações e das missões empresariais. Foram cinco anos muito gratificantes.

Em 2011, voltei para a FIL, o meu lugar de origem, onde me sentia bem mas não sou uma pessoa de fazer muitos anos a mesma coisa. Detesto a rotina. Então pedi para ter feiras que nunca tivesse tido. E foi aí que a BTL me veio parar às mãos. Era uma feira de que toda a gente gostava aqui na FIL. Mas eu tive azar pois apanhei a BTL “com o osso”. O que podia ser uma coisa muito boa, acabou por ser um bom desafio.

Que recordações tem desses primeiros tempos com a BTL?
Não conhecia ninguém. Nos outros setores é bom conhecer-se as pessoas, mas no turismo é ainda muito mais importante. Fui primeiro tentar perceber o que era o turismo. Embora o que nos seja pedido é que saibamos organizar feiras, temos que conhecer os setores. Estes anos têm sido muito gratificantes. Consegui posicionar a BTL como a maior mostra do destino a falar português. É isso que nos define. A BTL é o local por excelência da oferta do destino a falar português. Foi uma aposta ganha, que queremos continuar.

Ao nível da organização de feiras, qual tem sido a mudança mais relevante?
É um setor que está em ebulição e em grande reestruturação. As feiras de hoje não vão ser as feiras do futuro. Hoje as pessoas fazem um plano de negócios e estão preocupadas com o “return on investment” da participação, têm de perceber o que investem e o que ganham. E, nas feiras ao público, cada vez mais a “experiência do autocolante” já não funciona; cada vez mais as feiras têm que ser um lugar em que as pessoas têm que interagir.

Gostaria muito de uma BTL virada para o grande público, que o stand do Brasil, por exemplo, tivesse as Cataratas da Foz do Iguaçu a mandar água aos visitantes; gostaria que as agências de viagens tivessem os seus pacotes para os clientes comprarem. Cada vez mais as feiras têm que funcionar com conteúdos, para o grande público e para os profissionais. O futuro das feiras está cada vez mais, não nos mega stands, mas nos locais onde são discutidos vários assuntos.

No ano passado começámos a desenvolver na BTL o LAB, um local de network, onde se afloram algumas temáticas do setor e onde estão empresas deste setor, as mais inovadoras. Os novos formatos aparecem ali. É sempre importante que quem está no mercado conheça quem quer entrar no mercado com novas ideias. O LAB, esses spots na feira, são cada vez mais o “melting pot” de efervescência, de network, de ideias, de parcerias, de negócios. Este ano lançámos outra “bolha”, o BTL Cultural, que também tem conteúdos e players. Queremos dinamizar.

Não sei dizer o que será a BTL daqui a 20 anos, mas claramente vai proporcionar ao visitante profissional e ao grande público uma experiência diferente. Vamos criar spots, manchas, e a parte expositiva vai andar à volta dessas manchas.

Em Portugal as feiras profissionais são valorizadas?
Sempre foram valorizadas. Na altura em que a Internet apareceu, dizia-se que as feiras iriam perder importância. É um facto que o Web Summit vem contrariar isso. Obviamente que as relações entre as pessoas, o momento de se fazer as coisas é cada vez mais importante. O grande organizador de feiras mundial é a Alemanha. Há uma feira, de Hannover onde hoje as empresas estão presentes para informar os clientes do que irão produzir daqui a quatro anos. Por isso, acredito que as feiras com capacidade de se renovar, vão continuar a existir. Mas a inovação é o drive. As pessoas não querem ver coisas iguais, querem ser surpreendidas.

Quem é a Fátima profissionalmente? Qual é a abrangência das suas competências?
Hoje temos uma equipa fantástica de gestores de feiras, alguém que pensa nessa feira, que conhece o setor e que tem uma proximidade muito grande com (expositores e visitantes). Hoje, talvez a palavra que me defina melhor seja “feirante” (risos). Neste momento, sou diretora de Negócios e Conteúdos da FIL. Ou seja, alguém que se preocupa de uma forma transversal com o negócio, numa primeira fase; e, em boa hora, esta casa percebeu que a diferenciação está nos conteúdos. Por isso, cada vez mais estamos focados em dar conteúdos aos nossos produtos, para que a rentabilidade quer dos nossos expositores, quer dos nossos visitantes, aumente.

O que valoriza mais numa equipa?
Temos que escolher alguém que nos complemente, e assim tem que ser alguém que consiga desenvolver de uma forma mais prática algumas ideias que eu tenha mais no ar; e que consiga ir atrás do que penso. Gosto de alguém criativo, que não tenha medo de errar e, sobretudo, que haja cumplicidade entre as pessoas. Se estivermos a remar todos para o mesmo lado, somos muito mais eficientes. Gosto de alguém com mente aberta, que me questione. Dou imenso valor à frontalidade e à forma como as pessoas se entregam num objetivo de construir algo em comum.

É ambiciosa?
Não tenho tempo. Se tivesse, se calhar era… Tenho sido ambiciosa no meu percurso, mas também tenho a noção que não mudei de emprego, e tive possibilidade de o fazer, ao longo da minha carreira. Durante o meu percurso, tive imensos convites, mas gosto tanto do que faço que sempre me mantive nesta organização. Provavelmente daqui a uns tempos poderei ter outras motivações. Mas até agora acho que tenho a sorte de trabalhar numa atividade que nunca é igual.

 

Quem é Fátima Vila Maior?

Fátima Vila Maior é alfacinha desde nascença. Filha única, foi em Lisboa que passou a sua infância, até ir estudar para o Porto, quando decidiu ingressar no curso de Medicina. Na altura não hesitou na escolha académica mas, a meio do curso, arrependeu-se, acreditando que não seria essa a sua vocação. Recorda que, ao tomar a decisão de regressar a Lisboa sentiu um enorme alívio. Optou pela Universidade Livre, e acabou por se formar em Economia. Mais tarde, fez um Mestrado em Marketing e admite que gostaria de um dia continuar o seu percurso académico mas, o tempo escasseia. Ainda mata algumas saudades deste mundo quando surge a oportunidade de fazer alguns seminários e dar umas aulas.

Começou a trabalhar como rececionista na FIL e, desde então, não mais largou esta “casa”, tendo passado pelas áreas de Marketing e de Feiras, e contactado com várias feiras que ali se têm realizado ao longo dos anos.

Casada e com dois filhos – o filho com 30 e a filha com 29 – admite que sempre conseguiu conciliar a sua
vida profissional com a pessoal. Não tem problemas em afirmar que “trabalhar demasiado é relativo” e
que aquilo que interessa verdadeiramente é o tempo de qualidade que passamos com os filhos.

Leia aqui a 1ª Parte desta Grande Entrevista: “Temos que tornar a BTL um puzzle de feiras fragmentadas”

Inês Gromicho e Pedro Chenrim/ Fotos Raquel Wise.