“Gosto de fazer e deixar marca” (I)

“Gosto de fazer e deixar marca” (I)

José Carlos Pinto Coelho, presidente da Onyria, foi capa da Ambitur em Janeiro de 2014. Falar do seu percurso profissional, do que o levou até ao turismo e por onde tudo começou foi o que se propôs José Carlos Pinto Coelho, que recebeu a Ambitur na Quinta da Marinha, na sede da sua empresa, Onyria. Gestor assumido, do negócio da construção e das betoneiras passou para o turismo “por acaso”, mas aqui se mantém há mais de 26 anos. Conheça a história deste empresário hoteleiro que, com quatro dos seis filhos, aposta “numa marca de credibilidade e seriedade” no turismo.

Qual o seu primeiro contacto com o turismo?

Formei-me em Engenharia no Instituto Superior Técnico e comecei a trabalhar na Lisnave – Estaleiros Navais, Grupo Mello que era uma empresa excepcional e uma boa escola de formação. Não fui mobilizado para o Ultramar o que me permitiu não interromper a minha carreira profissional. Nesses anos aprendi a fazer Estudos de Viabilidade Económica. Chefiei o Gabinete de Estudos, Departamento de Projectos e mais importante aprendi a estudar, entender e gostar de negócios. Portugal na segunda metade dos anos setenta não tinha uma estrutura industrial organizada e os grupos económicos estavam desfeitos. Quem se mexia com mais velocidade e sabia um pouco mais, tinha oportunidades diferentes do normal. Simultaneamente ao projecto Lisnave – terminal de Porto Brandão, arranquei, com um grupo de amigos, com uma fábrica de produção de Betoneiras para a construção civil. Um dos projectos rondava os 140 milhões de dólares e o outro cerca de quinze milhões de euros. Foi um enorme sucesso. Com o pequeno projecto e com o devido desconto, naquele tempo fiz uma fortuna e com o grande projecto criámos base para desenvolvimento de novos negócios.Em pouco tempo, seis anos e liderado pelo meu amigo João Bello desenvolvemos 12 empresas diferentes sendo as mais importantes a Repsol Portugal, a Elf lubrificantes, a Boliden Portugal, estando as outras espalhadas por diferentes sectores. Assim quando a oportunidade da compra da Guia-Quinta da Marinha apareceu concretizámo-la em 24 horas. No período de 1986 a 1989 os nossos sócios multinacionais compraram as nossas participações. Os sócios portugueses acertaram e dividiram as empresas que detinham e por ironia, acabei por ficar com a parte mais lenta dos negócios, a Quinta da Marinha e Serviço Médico Permanente quando o que gostava era do outro lado mais negócio puro e internacional.E assim começou. Foi o transformar de uma aplicação e de repente vi-me envolvido com o projeto sem ter sido minha intenção inicial.

Era inevitável trabalhar neste sector?

Na altura íamos muito atrás do tempo, e a capacidade das pessoas virava-se para onde estavam as oportunidades. Assim o normal era não estar neste sector, porque era um sector imobilizado. Depois houve uma crise grande em 92. Tudo quanto foi feito nessa altura correu pessimamente, nomeadamente no Algarve. Para quem gosta de movimento e de negócio, e eu estava habituado tanto a projetos de pequena dimensão como de grande dimensão, mas dinâmicos. De pequena dimensão desde que fosse oportunidade e de grande dimensão porque gosto de trabalhos que se prolongam no tempo, gosto de coisas que ficam para outros, o fazer e deixar marca.

Qual o negócio que o marcou mais?

As Betoneiras, em 76/77, por ser o primeiro, pela simplicidade com que foi feito, e por sermos cinco amigos sem dinheiro. Pusemos dois ordenados de cada um… na altura 70 contos. O segundo foi a Repsol. Foi por estudo técnico do mercado, estudámos esta oportunidade e fomos a Espanha do zero desafiar a Petrogal de Espanha, a Repsol, para começarmos a ser sócios deles cá. O que equivalia a uma formiga ser sócia de um elefante. Em dois anos eramos o maior fornecedor de combustíveis do Tejo a navios. Foi uma oportunidade explosiva, de engenho.Depois ligado ao turismo, primeiro a aventura grande da Quinta da Marinha, numa altura muito difícil, com muitas vicissitudes, adquirimos um milhão de metros quadrados num dos locais mais valiosos do país. Um projecto grande, global. Depois gosto de tudo o que é novo. Palmares (Onyria Palmares BeachGolf Resort), por exemplo, são dois milhões de metros quadrados, em cima da praia, ao princípio parecia facílimo e tem sido uma trabalheira até agora. Mas a primeira sensação é que marca, o sonho a comandar uma cabeça, a comandar o engenho. O ter grande dimensão dá espaço para dar vida aos lugares acompanhando a dinâmica dos tempos.

Concorda com a afirmação de que “ter um hotel não é o mesmo que ter uma fábrica de parafusos”?

Não tem nada a ver. Aqui o sentimento do cliente, o grau de satisfação dele não é o mesmo que o grau de satisfação do momento em que compra ou não compra, é o grau de satisfação permanente, que se prolonga e deixa rasto. E a diversidade de clientes é excepcionalmente maior. Isto é serviço e não indústria.

Ainda se lembra quando abriu o primeiro hotel?

Quando aqui entrei comecei por fazer o aldeamento, em 1987; depois já sozinho, a partir de 1989, outra fase do aldeamento; depois uma terceira fase em 94. Este hotel Quinta da Marinha abre então em 17 de Dezembro de 99, porque tinha dito desde o início que abriria um hotel antes de 2000, e assim foi.

Que marca procurou implementar nestes seus projectos?

Primeiro uma marca de credibilidade. Especialmente quando o País é de pequena dimensão, vive-se de quem está à volta, vive-se porque as pessoas acreditam em nós, vive-se de conseguir alinhar interesses com os de outras pessoas, tanto de parceiros de negócio como os bancos, como de redes comerciais… significa sempre o fazer acreditar em nós. Na altura, antes propriamente deste projecto, a parte engraçada era procurar que as pessoas acreditassem que aquilo que eu pegava fazia e o fazia bem. Nessa altura vinha com esta embalagem e assim foi. É crucial.& Depois, é preciso ser agressivo e exigente. A qualidade que se põe no nosso trabalho, o aprofundamento que se faz de determinados assuntos, sermos obstinados, qualquer coisa que não está resolvida incomoda até encontrar soluções, e sem dúvida, a seriedade, lidar com a verdade.

O que é hoje o Grupo Onyria?

A Quinta da Marinha são 1 milhão de m2, 350 quartos distribuídos por várias unidades. O Hotel Quinta da Marinha Resort tem 198 quartos e 44 Villas, o Onyria Marinha tem 72 quartos e 12 Edition Villas, e depois outras 30 Golf Villas, além do campo do campo de golfe desenhado por Trent Jones. Tudo numa zona como esta que é um misto excepcionalmente bem feito entre residencial e turístico. O projecto está bem feito desde o início e não foi ideia minha. Foi de Carlos Simões de Almeida. Esta componente turística-residencial é o melhor valor da Quinta da Marinha porque o turista chega cá e sente que está num sítio residencial, sente um espaço com vida própria, é uma mistura de vivência com estilo próprio que criámos e quem vem de fora pode participar nesta experiência. Isto é a Quinta da Marinha. Este ano vendemos 25 milhões de euros em serviços, e aqui na Quinta da Marinha 13 milhões, foi quase metade. Palmares vende neste momento dois milhões de euros mas é um projecto no início, em que foi feito um investimento enorme em infraestruturas e campo de golfe, e agora falta fazer o resto. Mas a base principal está feita, e o campo de golfe passou a 24º da Europa Continental, tem tudo para ser bom.Depois Turquia, que este ano vendeu oito milhões de euros, caso que vou contando como exemplo porque actualmente detemos 100% do capital desde há um ano e meio. Este ano já teve um EBITDA de 2,5 milhões. Mostra o em pouco tempo se pode fazer, desde que as condições sejam favoráveis. Temos ainda uma participação pequena no Château des Vigiers e não sei se a manteremos, porque França está um país difícil e com as regras de trabalho e de incentivo a empreendedores existentes. No sector da saúde, temos o Serviço Médico Permanente, que vende também dois milhões de euros anuais, com resultados bons.De grande dimensão temos na Quinta da Marinha e principalmente em Palmares o sector de real estate turístico. Aqui as vendas começam agora a mostrar sinais positivos. Neste sector há que não esquecer que quando vendemos terra, trocamos m2 por dinheiro e que portanto é totalmente diferente de serviços.

A Ambitur.pt tem vindo a publicar parte das Grandes Entrevistas que tem realizado nas suas edições impressas, com alguns excertos inéditos.

A entrevista foi realizada em Janeiro de 2014.

Pedro Chenrim