#LinhasdeCrédito: “É a solução possível mas com grandes limitações”

#LinhasdeCrédito: “É a solução possível mas com grandes limitações”

Categoria Advisor, Associativismo

Numa altura em que muitas empresas do setor do turismo atravessam momentos difíceis a todos os níveis, incluindo o financeiro, a Ambitur.pt auscultou associações e entidades regionais para saber o que pensam das atuais linhas de crédito anunciadas pelo Governo e o que mais se pode esperar do Turismo de Portugal.

António Marques Vidal, presidente da direção da APECATE – Associação Portuguesa de Empresas de Congressos, Animação Turística e Eventos, afirma que “sempre afirmámos que substituir receita por dívida não é solução para a situação que as empresas estão a enfrentar”, aceitando que, no imediato, é “a solução possível mas com grandes limitações”.

O responsável explica que a maioria das empresas do setor do turismo são pequenas e microempresas que, não sendo rentáveis para o sistema financeira dada a reduzida dimensão das operações de financiamento, na sua maioria já estavam excluídas de financiamento, o qual quando ocorria era efetuado com base nas garantias pessoas dos sócios. O que significa que a maioria destas empresas nem histórico de crédito tem, e a sua relação com o sistema financeiro limitava-se a depósitos, pagamentos e transações com cartões de crédito. “Logo, a grande maioria das empresas do turismo não vai aceder às linhas de crédito anunciadas”, sublinha o presidente da associação.

Além disso, António Marques Vidal recorda que a visibilidade em termos do futuro é reduzida, o que leva a que a disponibilidade dos empresários se endividarem sem saberem a duração real da crise e qual o cenário após a retoma, em alguns casos com obrigatoriedade de manter o emprego, não seja muito grande. “Os empresários têm memória e lembram-se do que sofreram na sequência da última crise para pagar as dívidas e seguir em frente”, lembra.

O dirigente associativo refere ainda que as condições já evoluíram desde o início da crise, mas defende como desejável um longo período de carência (com um mínimo de 18 meses), um longo prazo de amortização com um mínimo de seis anos e garantia de 100% do Estado (atualmente é de 90% via garantia mútua). Também, dada a incerteza que rodeia o cenário da retoma, a APECATE defende que fique em aberto a sua extensão e eventual reconversão a Fundo Perdido, caso a empresa não regresse aos níveis de atividade de 2019. “A linha criada pela Região Autónoma da Madeira vai nesse sentido e é a que está mais perto de dar a resposta necessária à situação que vivemos”, admite o responsável.

“É um dilema fraturante e difícil com que os empresários se defrontam mas face ao único cenário proposto aceita-se que muitos fiquem nesta fase pelo caminho com tudo o que isso implica em termos de desemprego, destruição do tecido económico e pobreza”, refere António Marques Vidal.

O endividamento para as empresas pode acarretar o adiamento da falência das mesmas para um futuro próximo, com responsabilidades acrescidas, em termos pessoais, para gestores e sócios, alerta o responsável. Pelo que defende que é fundamental “com frieza e realismo ponderar o recurso ao endividamento como solução para ultrapassar esta crise, em particular porque não sabemos quanto vai durar e como vai ser o cenário de recessão económica que vão ter de enfrentar e o horizonte da recuperação para os níveis anteriores à crise”.

Da parte do Turismo de Portugal, António Marques Vidal reconhece que terá fazer algo mais quando a situação de saída do confinamento e o cenário de retoma forem mais claros, por exemplo, reforçando a linha do microcrédito, alargando-a a empresas com mais funcionários (atualmente só contempla empresas até 10 funcionários) e equacionar a sua conversão, em parte ou na totalidade, a fundo perdido.

“O Presidente francês, no seu discurso à nação, referiu que o Turismo foi o primeiro a entrar na crise e vai ser o último a sair, mas disse mais que neste contexto de receitas zero a solução para as empresas em termos de apoios tem de tender para custos zero pois, a não ser assim, não vai haver empresas quando esta crise passar. O Plano que estão a preparar para o setor do Turismo em França poderá ser, caso observe o principio já referido, um exemplo a seguir”, aponta o presidente da APECATE.

Inês Gromicho