Mercados emissores do Alentejo confiam na “reputação” do país e na “segurança” da região 

Mercados emissores do Alentejo confiam na “reputação” do país e na “segurança” da região 

A Associação de Promoção Turística do Alentejo (ARPTA) quis ouvir o que tinham os especialistas dos seus principais mercados emissores a dizer sobre este momento de crise que vivemos. Para Vítor Silva, presidente da ARPTA, era importante “traçar um cenário realista” e saber quais as expectativas futuras quanto ao Alentejo. Espanha, Alemanha, Brasil, EUA e Reino Unido parecem concordar que o país e a região têm tudo para sair “à frente” na retoma turística e que regressam com excelente “reputação”.

Vítor Silva iniciou a conferência online, subordinada ao tema do turismo externo, dando conta de quais são, efetivamente, os principais mercados emissores de turistas para a região e de qual tem sido a sua evolução ao longo do tempo. Espanha, face à proximidade, é o principal mercado externo para o Alentejo (20%), seguida da Alemanha (10%) e do Brasil (10%). O responsável defende que “o mercado norte-americano tem sido o que mais tem crescido, nos últimos anos, para Portugal e para o Alentejo” e que, se não fosse este interregno no turismo, “era o mercado que iria disputar o ‘2.º lugar’ com a Alemanha e o Brasil”. Já o mercado britânico tem revelado “estabilidade” mesmo com a situação do Brexit.

Vítor Silva afirma que “o Alentejo é a região do país que menos depende dos mercados externos” e que mesmo em relação a Espanha “não temos uma excessiva dependência desse mercado”, ou de outro mercado ou produto turístico, o que no seu entender é positivo. O presidente da ARPTA comenta que “Portugal já era um dos destinos mais seguros do mundo” e que, dentro do país, o Alentejo é a “região mais segura”, pelo que o desafio para a retoma é “reinventar, sem deixarmos de ser quem somos, na maneira como nos vamos apresentar ao mundo”.

Espanha: “Portugal sai desta crise com uma reputação alta”

A vizinha Espanha parecer voltar, aos poucos, à normalidade apesar da “falta de informação” das medidas tomadas pelo Governo e do “negativismo” da população para o qual contribuíram as notícias. “Estamos num momento bastante complicado e Espanha tem sofrido uma grande crise de reputação”, sendo um dos países mais afetados a esse nível, frisa Maria de Pereda, vice-presidente da New Link. Pelo contrário, aos olhos dos espanhóis, “Portugal sai desta crise com uma reputação alta” e “tem de se apresentar de forma solidária a Espanha”. Quanto ao Alentejo, a responsável aconselha o destino a “capitalizar os seus valores” desde a segurança, à sustentabilidade e à qualidade-preço da região. Além disso, “o turismo rural vai ser visto como o mais seguro”.

A atividade turística espanhola está a “zero” e Maria de Perena recorda que o turismo representava 14,6% do PIB e 14,7% do emprego em Espanha. Então o que é que Espanha tem feito em prol da retoma turística? Numa primeira fase, é necessário ajudar financeiramente as empresas com planos de liquidez e colaboração público-privada. Depois importa atualizar procedimentos, infraestruturas e equipamentos de proteção e segurança, tal como limitar a densidade populacional em lugares públicos e turísticos. No caso dos hotéis, vão ser criados manuais de trabalho para a nova realidade e certificados de higiene e segurança. Vão também ser atribuídos incentivos fiscais aos viajantes domésticos e o enfoque inicial, para as férias, serão destinos de proximidade como Portugal. Espera-se ainda estender o período de época alta no país.

Alemanha e Brasil: “Movimento de solidariedade para com as regiões que melhor acolheram no passado”

O consultor de turismo João Castro indica que, na Alemanha, “a confiança no Governo é extraordinária” e que o Ministério dos Negócios Estrangeiros emite regularmente informações sobre viagens e suas restrições. Ali, o Governo não aconselha planear viagens para o estrangeiro durante este verão, na medida em que as restrições de muitos países não são atrativas para umas férias, mas não descarta a hipótese de abrir as fronteiras ainda antes do verão. As agências de viagens alemãs pedem ao Governo que avance para os vouchers ao invés de reembolsos e que conceda apoios à sua liquidez. De recordar que o turismo representa 10,7% do PIB alemão.

Contudo, João Castro relembra que “outubro é dos meses mais fortes do mercado alemão para Portugal”, pois muitos Estados federais têm as férias escolares nessa altura, e que se verifica a “crescente afirmação da marca Alentejo” junto dos turistas alemães.

Para o consultor, “o Alentejo tem todas as condições para voltar aos números de 2019 e de ultrapassá-los significativamente em 2021-22” na medida em que a procura estará mais “direcionada para destinos sem oferta massificada” e porque “a ruralidade e o turismo rural são a forma ideal de retomar o contacto com a Natureza após semanas de isolamento”. João Castro acredita mesmo que irá existir um “movimento de solidariedade” para com as regiões que melhor acolheram os visitantes no passado.

No Brasil “vão prevalecer viagens individuais em destinos mais pequenos”, a curto prazo no interior do país e mais adiante para a América do Sul e Caraíbas, e só depois rumo à Europa e ao resto do Mundo, desvenda Fábio Torres, co-fundador da AFT Comunicação. Ainda assim, “o destino Portugal é muito forte no Brasil e pode sair à frente desta crise” pois o turista vai procurar “revisitar sítios onde já viveu grandes momentos”.

EUA: “Portugal é pequeno e pequeno é o novo grande”

Mais de 18 milhões de americanos visitaram a Europa em 2019, correspondendo a cerca de 10% do volume total de viagens ao estrangeiro feito pelos EUA. Desses, Portugal recebeu 1,2 milhões de visitantes que gastaram em média 506 euros por dia. No Alentejo, os turistas americanos cresceram 26% tornando-se o 4.º mercado emissor da região.
Os dados foram avançados por Jayme Simões, presidente da Louis Karno & Company Communications, para mostrar a relevância do mercado americano para Portugal e assegura que “os americanos com maiores dificuldades não são os que viajam para a Europa e para Portugal”, pelo que esses vão continuar a faze-lo.

Ao contrário de outros países, nos EUA “não há uma estratégia nacional” e as medidas dependem dos Estados e alguns “funcionam na normalidade”. As companhias aéreas estão a funcionar a 10% da sua capacidade, no entanto, Jayme Simões atenta que os voos da TAP com destino aos EUA regressam já em maio e que vão existir novos voos Boston-Ponta Delgada no mês de junho. “Portugal é o país mais próximo da Europa para os EUA em horas de voo” e, mais do que nunca, os passageiros vão querer passar menos tempo quanto possível dentro de um avião, reflete o responsável.

Para Jayme Simões um “novo normal” irá surgir e Portugal é pequeno e o “pequeno é o novo grande”. Segundo o mesmo, o americano conhece Lisboa, Porto, Algarve e Açores mas “desconhece o resto e que entre Lisboa e o Algarve há uma coisa extraordinária” chamada Alentejo, que muito o vai atrair pela sua autenticidade, tradição e sossego.

Reino Unido: “O Brexit não pode ser ignorado”

Para Ricardo Dinis, diretor regional da TAP no Reino Unido e Irlanda, deve-se “olhar para o futuro como um recomeço”, sobretudo, no que ao Reino Unido diz respeito. É que além da crise do Covid-19 o país ainda tem um Brexit por resolver e que “não pode ser ignorado”. “Até ao fim de junho vão ter de ser tomadas decisões e o Governo não parece disposto a adia-las”, adiciona.

O Covid-19 chegou um pouco mais tarde ao Reino Unido, que se encontra agora em pleno pico da pandemia. O turismo e a aviação estão “parados” embora existam ainda alguns voos entre Portugal e o País. A TAP planeia ter dois voos por semana para Londres a partir de 7 de maio. A 17 de maio ambiciona dar início a um voo diário até ao final de junho.

Mas “a retoma vai ser feita muito lentamente” e com base na procura, considera Ricardo Dinis. turismo internacional será, sobretudo, intra europeu “pela menor incerteza em relação às condições médicas e hospitalares que os países podem oferecer”, explica. Também no Reino Unido acredita-se que “Portugal fez um excelente trabalho de controlo do vírus”.

Rita Inácio